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Antes da aplicação, há ciência: AuxDefense e a investigação em materiais para a Defesa
Da integração de sensores no vestuário à resposta ao impacto, a investigação apresentada na AuxDefense 2026 mostra como o desenvolvimento de novas capacidades de Defesa começa no conhecimento dos materiais.
A capacidade tecnológica não começa na linha de produção. Constrói-se antes. Do estudo dos materiais e na compreensão do seu comportamento em condições exigentes à transformação desse conhecimento em soluções capazes de evoluir para novos processos industriais e produtos.
Foi precisamente esse percurso, do conhecimento científico ao desenvolvimento tecnológico, que os trabalhos apresentados pela Fibrenamics na AuxDefense 2026 procuraram evidenciar e demonstrar como os materiais avançados, estruturas auxéticas e têxteis técnicos podem contribuir para o desenvolvimento de novas soluções de Defesa e Proteção.
Os contributos científicos da Fibrenamics para a Defesa
Os trabalhos apresentados refletem a diversidade das áreas de investigação desenvolvidas pela Fibrenamics e a forma como estas podem responder a diferentes desafios da Defesa, desde o aumento da resistência e a redução do peso até à monitorização, à proteção térmica e à manutenção do desempenho após o impacto.
Na área dos compósitos, Daniel Barros estudou a hibridização de laminados para melhorar o desempenho ao impacto, procurando conjugar resistência, leveza e capacidade de absorção de energia.
Gonçalo Oliveira centrou-se na resistência residual de laminados compósitos auxéticos, analisando não apenas a resposta imediata ao impacto, mas também o desempenho que estas estruturas conservam depois de sofrerem dano.
Na proteção individual, Maria Gonçalves explorou a integração de fios auxéticos em malhas seamless para impactos de baixa intensidade, procurando combinar desempenho, flexibilidade e conforto.
A sensorização dos materiais esteve também em destaque no trabalho de Mónica Ferreira, dedicado a estruturas de malha capazes de funcionar como sensores. Estas estruturas alteram a sua resistência elétrica quando são pressionadas ou deformadas, permitindo integrar funções de monitorização diretamente nos materiais têxteis.
Ainda no domínio dos sistemas sensoriais, Joana Antunes apresentou um sensor eletroquímico de base têxtil para a prevenção da condução sob o efeito do álcool, demonstrando o potencial destes materiais para apoiar a prevenção e a segurança em contextos de mobilidade.
Por fim, Tânia Tavares abordou a proteção térmica através do desenvolvimento de fios resistentes ao fogo para vestuário técnico de Defesa e Proteção, com potencial de implementar esta funcionalidade a partir de um dos elementos mais fundamentais de qualquer estrutura têxtil.
Em conjunto, estes trabalhos atestam como a ciência é uma etapa fundamental do processo de desenvolvimento tecnológico. É nela que se testam hipóteses, se compreendem limitações e se criam as bases para decisões futuras. Mas a investigação também não encerra o percurso. Os resultados científicos precisam de avançar para fases de otimização, prototipagem, ensaio, integração, certificação e produção até se transformarem em soluções disponíveis para a indústria e para os utilizadores.
AuxDefense: a aproximação da ciência, indústria e Defesa
A criação de capacidade tecnológica não resulta de um avanço isolado. Entre uma investigação e a sua aplicação existe uma cadeia de desenvolvimento que exige a colaboração entre universidades, centros tecnológicos, empresas e entidades de Defesa.
Foi precisamente para aproximar estas diferentes perspetivas que a Fibrenamics, a Universidade do Minho e a Sciencentris coorganizaram a 5.ª edição da AuxDefense – World Conference on Advanced Materials for Defense, realizada entre 1 e 3 de julho, no Funchal.
Mais de 150 especialistas internacionais participaram nesta edição, reunindo diferentes perspetivas da investigação, da indústria e das entidades de Defesa. O programa contou, entre outros, com representantes da Agência Europeia de Defesa, do Instituto Franco-Alemão de Investigação de Saint-Louis, da Airbus e da PRIMA Québec, num debate alargado sobre compósitos, nanomateriais, têxteis inteligentes, sensores, cerâmicas avançadas e fabrico aditivo.
Mais do que apresentar resultados, a AuxDefense permitiu validar abordagens, identificar desafios comuns e criar novas possibilidades de colaboração científica e tecnológica. Uma sinergia que foi alvo de reflexão de Luís Oliveira, CEO da Fibrenamics, no artigo de opinião “A defesa começa nos materiais”, publicado no ECO e onde destaca que o futuro não dependerá necessariamente de um único material extraordinário, mas da capacidade de articular materiais, processos de fabrico, desenho de produto e conhecimento operacional.
Confira os principais momentos da conferência no vídeo: AuxDefense 2026 | Official Event Recap & Technical Highlights.
A ciência que dá forma à inovação em Defesa
Na Defesa, os materiais não são o último elemento de uma solução. São o primeiro. É a partir das suas propriedades que se determina o peso de um equipamento, a resistência de uma estrutura, a capacidade de absorver um impacto, suportar temperaturas extremas ou integrar funções sensoriais. Por isso, a investigação científica não deve ser vista como uma etapa distante da aplicação. É o lugar onde a aplicação se torna possível.
O conhecimento científico apresentado na AuxDefense materializa essa realidade concreta: compreender como um compósito reage depois do impacto, explorar geometrias capazes de aumentar a proteção, transformar uma malha num sensor ou desenvolver resistência ao fogo desde a escala do fio.
O desafio seguinte será levar esse conhecimento além do laboratório, através de visão empreendedora, iniciativas de inovação, processos industriais e soluções validadas.
Porque a autonomia tecnológica começa no conhecimento, mas só se consolida quando existe vontade e capacidade para o transformar em impacto real.