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Pedro Siza Vieira alerta para necessidade de reposicionamento estratégico da Europa e reforça papel da especialização na competitividade portuguesa
A Fibrenamics promoveu mais uma edição dos seus Business Talks, desta vez com a participação de Pedro Siza Vieira, que trouxe uma reflexão estruturada sobre o atual contexto geopolítico e económico internacional, sublinhando que os desafios enfrentados pela Europa não são inesperados, mas antes o resultado de tendências identificadas há vários anos.
Europa perante vulnerabilidades estruturais
No centro da sua intervenção esteve a constatação de que a Europa continua a ser a maior potência exportadora mundial, mas enfrenta um desequilíbrio estrutural: produz em excesso face à sua procura interna. Este excedente resulta de uma combinação de fatores, entre os quais se destaca a insuficiência de investimento e consumo dentro do próprio espaço europeu, obrigando a uma forte dependência dos mercados externos para escoamento da produção.
Paralelamente, foi evidenciada a elevada dependência europeia de países terceiros no acesso a matérias-primas e recursos críticos, bem como na energia. Esta dependência estende-se também à capacidade transformadora, uma vez que grande parte da produção industrial foi deslocalizada ao longo das últimas décadas. Este modelo, assente no outsourcing produtivo, na eficiência de custos e na escala, está hoje sob forte pressão, contribuindo para um aumento da exposição estratégica da Europa e limitando a sua capacidade de proteção e autonomia — nomeadamente face à dependência dos Estados Unidos em matéria de segurança.
Na perspetiva de Pedro Siza Vieira, este processo teve ainda como consequência o reforço de outras potências, como a China, que não só absorveram capacidade produtiva, como também internalizaram as ferramentas económicas e industriais inicialmente utilizadas pelo Ocidente. Num contexto em que o acesso livre aos mercados já não pode ser garantido, a Europa é hoje confrontada com a necessidade de repensar o seu posicionamento, reconhecendo fragilidades estruturais como a dependência externa e a debilidade da procura interna.
Neste enquadramento, foi destacada a urgência de reforçar a integração europeia, promover a eliminação de barreiras internas e estimular a produção dentro do espaço europeu. Sublinhou igualmente a importância de garantir condições equitativas de concorrência, assegurando que todos os agentes que operam no mercado europeu respeitam as mesmas regras. A capacidade de dominar tecnologias críticas foi apontada como fator determinante para a definição de preços e para a afirmação competitiva no panorama global.
Portugal entre adaptação, oportunidade e especialização
No que respeita a Portugal, o orador destacou que o país se encontra num momento crítico, mas simultaneamente repleto de oportunidades. Após um percurso historicamente marcado por uma especialização em setores de baixo valor acrescentado, Portugal iniciou, nos anos que antecederam a pandemia, um processo de diversificação e maior integração na economia global, impulsionado, em grande medida, pela qualificação da sua população.
Contudo, a pandemia e as alterações subsequentes nos mercados internacionais — incluindo o aumento de barreiras comerciais e a crescente agressividade competitiva de países como a China — vieram introduzir novos desafios. Ainda assim, a capacidade de adaptação demonstrada por Portugal ao longo dos últimos anos foi apontada como uma vantagem estratégica relevante.
Olhando para o futuro, foi deixada a convicção de que a Europa será necessariamente diferente dentro de uma década, impulsionada pela necessidade de reforçar a sua autonomia, nomeadamente nos domínios da energia e da defesa. Neste contexto, Portugal poderá beneficiar da sua posição geográfica, relativamente afastada de zonas de conflito, tornando-se mais atrativo para o investimento produtivo.
A especialização económica foi identificada como um dos pilares fundamentais para o aumento da competitividade, com referência a países como a Dinamarca e os Países Baixos, onde a concentração em áreas estratégicas tem permitido níveis elevados de produtividade e rendimento. Para Portugal, este caminho implica a necessidade de fazer escolhas claras, evitar dispersão — incluindo ao nível das infraestruturas de investigação e desenvolvimento — e promover uma organização mais estratégica dos recursos.
Por fim, foi sublinhada a importância de reforçar a agilidade organizacional, a capacidade de decisão e a assertividade, tanto ao nível institucional como empresarial. A confiança e a colaboração entre agentes económicos e institucionais surgem, neste contexto, como elementos críticos para enfrentar os desafios atuais e construir um posicionamento competitivo sustentável.
Este Business Talk reforçou a importância de uma leitura estratégica do contexto internacional e do papel que entidades como a Fibrenamics podem desempenhar na ligação entre conhecimento, tecnologia e indústria, contribuindo para a construção de uma economia mais resiliente, diferenciada e orientada para o futuro.